Programa da ONU cobra a ação 'urgente'



A diretora do Programa Mundial de Alimentos da Organização das Nações Unidas (ONU), Josette Sheeran, afirmou nesta terça-feira que o mundo precisa entrar em ação e adotar medidas urgentes para combater a crise internacional dos alimentos. Em entrevista à rede BBC, Sheeran afirmou que os países precisam estimular a produção para reduzir os preços e atender a demanda por comida. Enquanto o impacto dessas medidas não for sentido, é preciso também ajudar os pobres que têm de lidar com a crise.

Conforme Sheeran, o programa da ONU está ficando sobrecarregado -- hoje, atende mais 100 milhões de pessoas que, há apenas seis meses, não precisavam de ajuda. A representante das Nações Unidas participa de um encontro sobre o assunto comandado pelo primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Gordon Brown, em Londres, ainda nesta terça. "Queremos mostrar que o relógio está correndo e precisamos ajudar as pessoas em sua alimentação", disse ela, antecipando a posição que apresentaria no evento.

Sheeran lembrou ainda que o preço do arroz na Ásia disparou de 460 dólares por tonelada no início de março para mais de 1.000 dólares apenas sete semanas depois. No último ano, os preços do arroz, trigo e milho quase dobraram. Para o programa da ONU, a situação é dificílima -- além de ter de ajudar mais gente, tem de pagar mais caro pelos alimentos que distribui. Ela evitou culpar apenas os biocombustíveis pela crise -- mas reconheceu que esse tipo de produção é um dos fatores que influenciam a alta.

Especialistas da ONU reclamam do impacto da produção dos biocombustíveis sobre o preço dos alimentos, mas alguns afirmam que o problema não é o etanol brasileiro -- feito da cana-de-açúcar -- mas sim o americano, que vem do milho. Em discurso preparado para o encontro desta terça, Gordon Brown afirma que a crise dos alimentos é tão grave quanto a crise financeira mundial, e ameaça acabar com os avanços obtidos nos últimos anos através de programas de desenvolvimento nos países mais pobres.

Para Brown, "combater a fome é um desafio moral para cada um de nós". O premiê britânico lembra que a falta de comida é "ameaça à estabilidade econômica e política" das nações. Por causa da escassez de alimentos, países como Haiti, Camarões, Egito, Indonésia, Moçambique e Senegal tiveram confrontos violentos nos últimos meses. Sobre os biocombustíveis, Brown diz ser necessário rever o impacto da produção e ser mais "seletivo" -- ou seja, estimular apenas os que não encareceriam os alimentos.


O que está por trás da crise mundial de alimentos?

Atualmente você ouve muito sobre a crise financeira mundial. Mas há outra crise mundial em andamento -e está prejudicando muito mais pessoas.

Eu falo sobre a crise de alimentos. Nos últimos dois anos os preços do trigo, milho, arroz e outros alimentos básicos dobraram ou triplicaram, com grande parte do aumento ocorrendo nos últimos poucos meses. Os altos preços dos alimentos incomodam até mesmos os americanos relativamente prósperos, mas são realmente devastadores nos países pobres, onde os alimentos freqüentemente são responsáveis por mais da metade das despesas de uma família.

Já há ao redor do mundo tumultos causados por alimentos. Os países fornecedores de alimentos, da Ucrânia até a Argentina, estão limitando as exportações em uma tentativa de proteger os consumidores domésticos, levando a protestos furiosos dos produtores rurais -e tornando as coisas ainda piores nos países que precisam dos alimentos importados.

Como isto aconteceu? A resposta é uma combinação de tendências de longo prazo, azar e política ruim.

Vamos começar pelas coisas que não são culpa de alguém.

Primeiro, há a marcha dos chineses comedores de carne -isto é, o crescente número de pessoas nas economias emergentes que estão, pela primeira vez, ricas o bastante para começarem a comer como os ocidentais. Como são necessárias cerca de 700 calorias em ração animal para produzir um bife de carne bovina de 100 calorias, esta mudança na dieta aumenta a demanda geral por grãos.

Segundo, há o preço do petróleo. A agricultura moderna é altamente intensiva em energia: muita BTU (unidade térmica britânica) é usada na produção de fertilizante, na operação de tratores e no transporte dos produtos agrícolas aos consumidores. Com o petróleo persistentemente acima de US$ 100 o barril, os custos de energia se tornaram o principal fator por trás dos aumentos dos custos agrícolas.

Os altos preços do petróleo, a propósito, têm muito a ver com o crescimento da China e de outras economias emergentes. Direta e indiretamente, estas potências econômicas em ascensão estão competindo com o restante de nós por recursos escassos, incluindo petróleo e terras agrícolas, elevando os preços de matérias-primas de todo tipo.

Terceiro, houve uma seqüência de condições meteorológicas adversas em áreas-chave de cultivo. A Austrália, em particular, normalmente a segunda maior exportadora de trigo do mundo, vem sofrendo uma seca épica.

OK, eu disse que estes fatores por trás da crise dos alimentos não são culpa de ninguém, mas não é bem verdade. A ascensão da China e de outras economias emergentes é a principal força por trás do aumento dos preços do petróleo, mas a invasão ao Iraque -que seus proponentes prometeram que levaria a petróleo mais barato- também reduziu a oferta de petróleo abaixo do que estaria caso contrário.

E o clima ruim, especialmente a seca australiana, está provavelmente relacionado à mudança climática. Assim, políticos e governos que ficaram no caminho da ação contra os gases do efeito estufa têm alguma responsabilidade pela escassez de alimentos.

Mas onde os efeitos de políticas ruins estão mais claros é na ascensão do demônio etanol e outros biocombustíveis.

A conversão subsidiada de produtos agrícolas em combustível deveria promover a independência energética e ajudar a limitar o aquecimento global. Mas esta promessa era como colocou a revista "Time", um "embuste".

Isto é particularmente verdadeiro em relação ao etanol de milho: mesmo nas estimativas otimistas, a produção de um galão de etanol de milho usa grande parte da energia que o galão contém. Mas, na verdade, até mesmo políticas de biocombustíveis aparentemente "boas", como a usada pelo Brasil com o etanol de cana-de-açúcar, aceleram o ritmo da mudança climática ao promover o desmatamento.

E enquanto isso, a terra usada para cultivo de ração e biocombustível é terra não disponível para o cultivo de alimentos, de forma que os subsídios aos biocombustíveis são um grande fator na crise dos alimentos. Seria possível colocar desta forma: as pessoas estão passando fome na África para que políticos americanos possam cortejar eleitores nos Estados rurais.

Ah, e em caso de você estar se perguntando: todos os candidatos presidenciais que restam são terríveis nesta questão.

Mais uma coisa: um motivo para a crise dos alimentos ter ficado tão severa, tão rapidamente, é que os grandes agentes no mercado de grãos se tornaram complacentes.

Governos e mercadores privados de grãos costumavam manter grandes estoques em tempos normais, para o caso de uma safra ruim criar uma escassez repentina. Mas ao longo dos anos, foi autorizado que estes estoques preventivos encolhessem, principalmente porque todos acreditavam que os países que sofressem quebra de safra sempre poderiam importar o alimento necessário.

Isso deixou o equilíbrio mundial de alimentos altamente vulnerável a uma crise que afeta muitos países ao mesmo tempo -da mesma forma que a negociação de títulos financeiros complexos, que deveriam afastar o risco por meio da diversificação, deixaram os mercados financeiros mundiais altamente vulneráveis a um choque por todo o sistema.

O que deve ser feito? A necessidade mais imediata é de mais ajuda para as pessoas em dificuldades: o Programa Mundial de Alimentos da ONU fez um apelo desesperado por mais fundos.

Nós também precisamos reagir contra os biocombustíveis, que revelaram ser um erro terrível.

Mas não está claro quanto precisa ser feito. Alimento barato, assim como o petróleo barato, pode ter se transformado em algo do passado.



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